
hoje sou velha,
hoje sinto-me velha.
Sinto.
O branco das minhas cãs
pesa-me nos ombros,
O negro das minhas rugas
branqueia-me os olhos,
hoje sou velha.
hoje sou velha, esquecida e vivida.
lembro-me de tudo,
dos dias longos e frios,
das noites curtas e cálidas,
do teu doce olhar,
do teu abraço forte,
do teu colo quente.
Hoje estou cansada, fatigada até.
Não quero viver mais,
quero dormir, esquecer o meu pesar.
quero voltar atrás e reviver,
VIVER
As engelhas que pesam na minha fronte
são de ouro, branco.
são rubis, esmeraldas, turquesas as cãs que caem da fonte,
valem o que valem. são pedras,
são marcos.
estou velha e cansada e pesada.
Pesarosa e triste.
O que dói levar as rochas junto ao corpo,
em forma e disforme.
O que pesa não sentir nada,
sentir tudo,
sentir o frio
dos dias à espera
que chegue a noite, meiga.
hoje sou velha,
já não tenho memória que guarde
as recordações de ontem.
hoje sou velha,
lembro-me de tudo o que vivi
e tudo é muito é demais,
mas não chega.
Estou cansada do peso das engelhas,
da clarividência das cãs,
mas quero mais,
Quero.
Hoje sou velha,
tão velha como as minhas cãs...
