O dia em que Kurt Cobain morreu
não sei qual foi.
Não havia Internet,
nem se sabia o que eram telemóveis.
Não era preciso.
A camioneta levava-nos até à vila.
A carreira trazia-nos para casa.
quilómetros feitos, centenas de metros caminhados.
À noite era-se esperado, e nada mais...
Ao almoço comia-se pizza, sopa ou pão.
E quando quem era esperado não vinha,
voltava-se à vila, ia-se aos bares,
bebia-se shots e café,
perdiam-se os neurónios da infância,
acolhiam-se os neurónios da adolescência...
Não havia medo. O mundo pertenciam-nos.
Naquelas horas entre a camioneta nos levar e a carreira nos trazer.
Naquelas horas entre a camioneta nos levar e a carreira nos trazer,
tínhamos coragem. Era tempo de viver.
Hora de aprender, altura de Crescer.
No tempo em que o Kurt Cobain viveu,
vestíamos a camisa do pai e a camisola do avô.
No tempo em que Kurt Cobain cantou,
éramos rebeldes e tristes mas felizes.
No tempo em que não havia telemóvel, nem Internet,
os pais tinham coragem e deixavam-nos viver.
Agora não há coragem, agora não há rebeldia,
nem vivência. Agora há medo.
Agora há telemóveis,
Não é como o dia em que o Kurt Cobain morreu.
terça-feira, 26 de março de 2013
quinta-feira, 15 de julho de 2010
cãs

hoje sou velha,
hoje sinto-me velha.
Sinto.
O branco das minhas cãs
pesa-me nos ombros,
O negro das minhas rugas
branqueia-me os olhos,
hoje sou velha.
hoje sou velha, esquecida e vivida.
lembro-me de tudo,
dos dias longos e frios,
das noites curtas e cálidas,
do teu doce olhar,
do teu abraço forte,
do teu colo quente.
Hoje estou cansada, fatigada até.
Não quero viver mais,
quero dormir, esquecer o meu pesar.
quero voltar atrás e reviver,
VIVER
As engelhas que pesam na minha fronte
são de ouro, branco.
são rubis, esmeraldas, turquesas as cãs que caem da fonte,
valem o que valem. são pedras,
são marcos.
estou velha e cansada e pesada.
Pesarosa e triste.
O que dói levar as rochas junto ao corpo,
em forma e disforme.
O que pesa não sentir nada,
sentir tudo,
sentir o frio
dos dias à espera
que chegue a noite, meiga.
hoje sou velha,
já não tenho memória que guarde
as recordações de ontem.
hoje sou velha,
lembro-me de tudo o que vivi
e tudo é muito é demais,
mas não chega.
Estou cansada do peso das engelhas,
da clarividência das cãs,
mas quero mais,
Quero.
Hoje sou velha,
tão velha como as minhas cãs...
terça-feira, 30 de junho de 2009
pele de bebé

um dia nasci,
como todas as coisas nasci.
Apareci do nada,
vim para o mundo
- dizem que não queria vir
(e tantas vezes não quero)
mas vim, e estou cá
- será que estou?
às vezes olho o mundo
- que belo, que cheio de cor que é!
às vezes olho à minha volta
- que cinza vejo, que plano é,
mas eu não importo,
sou pequenina,
um grão de pó,
um areia na calçada,
uma partícula de terra,
castanha e fértil,
bela e imensa
alfa e ómega,
tudo e nada.
Vim ao mundo
nasci, fui bebé.
Serei, sou, fui...
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